sábado, 20 de novembro de 2010

A Felicidade


No outro dia passei lá ao pé e a minha mãe diz-me assim: Tás a ver, onde já estiveste, só mostra tudo o que já percorreste e fizeste para estares onde estás.
E eu respondi: pois, mas não houve sítio nenhum onde eu tivesse sido mais feliz!
Há quem tenha pressa de crescer. Parece que o mundo vai acabar, lhes vai fujir e têm todos medo que a vida não seja aproveitada.
Eu não...a melhor parte da minha vida tenho impressão que já passou! Foi alí.
No meu tempo as paredes eram amarelas, a porta era de madeira massiça e era pessada! Não havia tantos brinquedos, não havia tantas novidades. Não tinhamos horta, os nossos baloiços funcionavam de vez em quando! Tinhamos a lagarta, o comboio e o escrrega, onde brincávamos, às vezes, porque a maioria das vezes ficávamos na parte de cima do recreio, que não tinha grande coisa, o que nos obrigava ao uso da imaginação. Tinhamos dois vasos brancos, gigantes na proporção do nosso tamanho, com plantas, redondos. Para nós não eram vasos, eram naves espaciais, e nós eramos astronautas de sucesso! O meu nome costumava ser Celine, por causa da cantora!
Nas salas tinhamos os recursos necessários. Necessários porque eram suficientes, felizmente acho que no meu tempo ainda havia algum sentimento de partilha, ou se calhar não...mas eu sei que partilhava!
Tinhamos os lápis gigantes desenhados em papel e depois colados na parede, onde ao pé tinhamos um tapete com almofadas onde nos sentávamos para ouvir a João a contar-nos uma história. Eu queria sempre sentar-me em frente do lápis amarelo! Hoje a minha cor preferida é o cor de rosa, mas na altura devia achá-lo demasiado pindérico, ou então era porque a power ranger amarela era a mais simpática.
Foi lá que fiz o ensino pré-primário, o primário, e foi lá que no 5º e 6º ano aprendi a estudar para ter boas notas na escola dos crescidos!
Eu era feliz. Não tinha preocupações, estava protegida, ou não fosse eu uma das meninas bonitas e bem comportadas do Externato Novos Rumos. Frequentei a natação, o inglês e até o Ballet. Quis tanto o ballet que uma vez fui a uma aula clandestinamente...pouco tempo depois apareceu-me a Graça e levou-me para a sala! A partir daí os meus pais resolveram inscrever-me lá...mas por alguma razão não gostei. A minha dança não era bem aquela =)
Andei no inglês desde os 5 anos. Não resolveu muito, o meu inglês ainda hoje é péssimo! Mas gostava, até ao 3º ano, com a professora Lena. Depois foram os últimos dois anos com a directora, e eu aí já não gostava! Ela era uma autoridade, e eu tinha medo, porque normalmente errava bastantes exercicios e não queria que ela se zangasse comigo, até porque era raro zangarem-se comigo.
Ainda assim, era traquina. Uma vez fui para a rua =O foi a única vez que me senti envergonhada e só queria ir para casa! Fui a última a rir, a que deu mais barracada no ínicio de uma aula que estava dificil de começar por causa do barulho...pois, o meu sentido de auto-preservação não estava ainda bem afinado, e decidi rir-me na altura em que não devia...é assim.
Os meninos e meninas quando entram na escola são sempre casos complicados. Choram, demoram a adaptar-se, querem as mães e os pais. Pois eu também queria a minha mãe, mas bem longe dalí. Eu gostava era de estar lá...sempre fui um fenómeno, e toda a gente se lembra da única menina que não chorou naquele ano porque teve de ir para a escola. Mas no final acabei por ficar conhecida como a chorona. Porque chorava por tudo e por nada...ainda hoje é assim. O último dia como aluna oficial do colégio foi uma choradeira. Mais ninguém desceu as escadas a chorar, aos tropeções com o chapéu de finalista a cair para ir receber o diploma que provava que um ciclo da minha vida terminava alí. Chorei eu, chorou a professora Cristina. Chorou toda a gente porque as separações custam, e crescer e ver crescer também.
Fizemos todos, ou quase todos, uma viagem a Paris, a Eurodisney. Foi lindo, foi lá o culminar de anos maravilhosos passados.
Mas tudo passa. As pessoas desencontram-se, seguem caminhos diferentes, deixam de se falar...é a lei da vida...e quanto a isso pouco ou nada podemos fazer.
Hoje tenho 18 anos, estou na faculdade. Sempre fui considerada uma boa menina, uma boa aluna, um excelente ser humano. Hoje sou o que sou graças àqueles 9 anos que passei alí.
Tenho a idade que tenho e a vida que levo, mas tento sempre arranjar tempo para ir lá. Já não está lá a João nem a prof Cristina, mas está a Graça, a Tita, a Teresa, a prof Lena, a Directora....e estão as memórias. As mais bonitas que guardei.

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